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Quando uma mulher precisa abrir mão dos próprios óvulos para realizar o sonho da maternidade?

  • há 11 minutos
  • 7 min de leitura


Ao longo da minha prática em Reprodução Humana, acompanho mulheres que chegam ao consultório diante de uma possibilidade que, muitas vezes, nunca imaginaram: talvez seus próprios óvulos já não representem um caminho viável para uma gravidez.


E eu sei que essa descoberta vai muito além de um resultado de exame.


Quando começo a conversar sobre ovodoação, ou recepção de óvulos, surgem perguntas que envolvem identidade, genética, vínculo e a própria maneira como aquela mulher imaginou sua maternidade: “Se o óvulo vier de outra mulher, esse bebê será meu?”, “Ele terá alguma coisa de mim?”, “Quem é a doadora?”, “Eu posso conhecê-la?”, “Como essa doadora é selecionada?” e “Será que vou conseguir lidar emocionalmente com essa escolha?”.


São dúvidas legítimas e precisam ser acolhidas.


A ovodoação é uma das possibilidades oferecidas pela medicina reprodutiva para pacientes que não podem utilizar seus próprios óvulos ou que apresentam chances muito reduzidas de obter uma gestação com eles.


Quando essa possibilidade aparece, muitas mulheres precisam primeiro elaborar a ideia de que o filho não terá o material genético do seu óvulo. Isso pode mexer profundamente com expectativas construídas durante anos. Por isso, acredito que não basta apresentar uma técnica ou falar apenas sobre probabilidades de sucesso. Precisamos informar, acolher e, principalmente, respeitar o tempo de cada paciente.


Ovodoação não é uma questão apenas de idade


É muito comum associarmos a ovodoação às mulheres que chegaram aos 40 anos ou ultrapassaram essa idade. Mas essa é apenas uma parte da realidade.


A fertilidade feminina diminui progressivamente ao longo dos anos, e essa redução ganha maior importância a partir dos 35. Não estamos falando somente de ter menos óvulos disponíveis. O avanço da idade também está relacionado à diminuição da qualidade dos óvulos e ao aumento da proporção de alterações cromossômicas.


Isso, porém, não significa que uma mulher completou 35 anos e automaticamente precisará recorrer à ovodoação. Não é assim.


A idade é um marcador importante, mas nunca deve ser analisada isoladamente. Reserva ovariana, histórico reprodutivo, ultrassonografia, exames hormonais, tratamentos anteriores e outras características clínicas fazem parte dessa avaliação.


Também recebo mulheres jovens que precisam considerar a utilização de óvulos doados. Isso pode acontecer diante de insuficiência ovariana prematura, reserva ovariana muito baixa, comprometimento ou ausência dos ovários, determinadas condições genéticas ou depois de tratamentos capazes de prejudicar significativamente a função ovariana.


Alguns tratamentos contra o câncer, por exemplo, podem afetar a fertilidade. Esse risco depende de diferentes fatores, entre eles a idade da paciente, o tipo de tumor, os medicamentos utilizados, as doses e a região submetida à radioterapia.


Quando existe tempo e indicação antes de um tratamento potencialmente gonadotóxico, a preservação da fertilidade deve ser discutida. Infelizmente, nem todas as pacientes conseguem preservar seus óvulos antes de enfrentar a doença.


Também acompanhamos mulheres jovens que venceram uma doença importante e, depois, descobrem que sua função ovariana foi comprometida. Algumas conseguiram preservar óvulos antes do tratamento. Outras não tiveram essa oportunidade. Quando existe o desejo de gestar e há indicação médica, a ovodoação pode representar uma possibilidade para essas pacientes.


O que os dados internacionais nos mostram?


Os dados ajudam a compreender por que falamos tanto sobre a idade dos óvulos em Reprodução Humana.


Dados nacionais dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, referentes a 2022, mostram que, entre as transferências realizadas com óvulos ou embriões da própria paciente, a taxa de nascimento vivo foi de aproximadamente 40,8% aos 35 anos. Aos 40 anos, foi de 31,6%; aos 43, 20,2%; aos 45, 13,8%; e, depois dos 45 anos, aproximadamente 10,4%.


Nos tratamentos em que foram utilizados óvulos ou embriões doados, os resultados ficaram muito mais estáveis entre as diferentes idades das receptoras, aproximadamente entre 37% e 43% por transferência, segundo os dados apresentados pelo CDC.


Essa diferença nos ajuda a entender um conceito central da reprodução humana: a idade da mulher que produziu o óvulo exerce enorme influência sobre o potencial reprodutivo desse óvulo.


Quando utilizamos um óvulo doado, o fator relacionado à idade do óvulo passa a refletir principalmente as características da doadora. Isso, entretanto, não significa que os riscos associados a uma gravidez em idade materna avançada desapareçam.


Uma mulher pode estar saudável, menstruando normalmente e levando uma vida ativa e, ainda assim, seus óvulos acompanham sua idade biológica. Precisamos falar sobre isso sem alarmismo. Conhecer a própria fertilidade permite tomar decisões de maneira mais consciente.


A ovodoação também é realidade fora do Brasil


A ovodoação faz parte dos tratamentos de reprodução assistida realizados em diversos países.

Dados europeus compilados pela European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) demonstram a participação relevante da doação de óvulos na reprodução assistida no continente.


Levantamentos divulgados pela entidade já apontaram taxas de parto próximas de 50% em tratamentos envolvendo doação de óvulos, embora os resultados variem conforme população, metodologia, país e características de cada tratamento.


No Reino Unido, informações da Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA) também mostram a presença desses tratamentos. Dados de 2022 indicaram que procedimentos utilizando algum tipo de doação corresponderam a aproximadamente 16% dos ciclos de fertilização in vitro registrados no país.


Nos Estados Unidos, o CDC contabilizou 435.426 ciclos de reprodução assistida em 2022. A diminuição da reserva ovariana apareceu entre os motivos relatados em cerca de 26,2% dos ciclos, considerando que um mesmo ciclo ou paciente pode apresentar mais de um fator associado.


É importante fazer uma ressalva: esse percentual não significa que 26,2% dos tratamentos tenham utilizado óvulos doados.


Como funciona a ovodoação no Brasil?


No Brasil, os tratamentos são realizados dentro das normas éticas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e das exigências sanitárias aplicáveis. Pelas normas vigentes do CFM, a mulher que doa óvulos deve ser maior de idade e ter, em regra, até 37 anos. Existem ainda regras relacionadas ao anonimato, à segurança e às responsabilidades dos centros de reprodução assistida.


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reúne informações dos Bancos de Células e Tecidos Germinativos por meio do SisEmbrio, que acompanha dados relacionados à reprodução humana assistida no país.


Também precisamos ter cuidado ao comparar números brasileiros e internacionais. Quantidade de óvulos doados, número de ciclos, transferências de embriões, gestações e nascimentos são indicadores diferentes e não podem ser apresentados como se representassem a mesma coisa.


A candidata à doação precisa passar por avaliação e cumprir critérios médicos, sanitários e éticos. Além da idade, são considerados histórico clínico, informações pessoais e familiares, exames laboratoriais e outros aspectos necessários à proteção da doadora, da receptora e do futuro bebê.


Existe, portanto, todo um processo médico e de segurança por trás da doação. A doadora precisa preencher critérios, realizar exames e passar pelas avaliações necessárias. É muito importante que a paciente entenda que a ovodoação segue regras e protocolos e não acontece de maneira informal.


“Se o óvulo não é meu, o bebê será meu?”


Talvez essa seja uma das perguntas que mais carregam emoção quando conversamos sobre ovodoação.

Na ovodoação, o óvulo contém o material genético da doadora. Depois da fecundação e da formação do embrião, ele é transferido para o útero da receptora, que vivenciará a gravidez.


Durante a gestação, o organismo materno participa intensamente do desenvolvimento fetal por meio do ambiente uterino, da placenta, da circulação, da nutrição, dos hormônios e de inúmeras interações biológicas.


Mas precisamos explicar isso corretamente: essa participação não deve ser confundida com a ideia de que a mulher que gesta “substitui” ou “reescreve” o DNA herdado do óvulo.

Existe uma origem genética que precisa ser explicada com transparência, mas existe também a experiência da gestação, do nascimento, do vínculo e da maternidade que será construída.


Algumas mulheres conseguem compreender e acolher essa possibilidade rapidamente. Outras precisam de mais tempo para elaborar a ausência do vínculo genético que imaginaram durante muitos anos. E esse tempo precisa ser respeitado.


Também gosto de lembrar que bons resultados estatísticos não significam garantia de gravidez. As estatísticas refletem resultados de grupos de pacientes e não podem ser transformadas em uma previsão individual.


Antes da transferência existe uma decisão que não aparece nos exames


Antes de uma transferência embrionária, existe uma etapa que nenhum exame consegue medir: a decisão emocional.


Não existe uma única maneira correta de atravessar esse processo. Para algumas mulheres, receber um óvulo doado é uma possibilidade aceita rapidamente. Para outras, existe um período necessário para elaborar a ausência do vínculo genético que imaginaram durante anos.


Por isso, nunca acredito que a ovodoação deva ser apresentada como uma obrigação ou simplesmente como a próxima etapa de um protocolo.


Nosso papel, como médicos, é mostrar os caminhos possíveis, explicar chances, riscos e limites e permitir que aquela mulher faça uma escolha consciente. O tempo emocional também precisa fazer parte desse cuidado.


Precisamos falar sobre fertilidade antes da infertilidade


Toda essa discussão também coloca em evidência algo que considero fundamental: precisamos conversar sobre fertilidade antes que exista uma dificuldade para engravidar. Informar uma mulher sobre envelhecimento ovariano não significa dizer quando ela deve ter filhos. Significa permitir que conheça o funcionamento do próprio corpo, saiba quais possibilidades existem e possa tomar decisões reprodutivas com mais informação.


A ovodoação pode aparecer depois de uma doença, de um diagnóstico inesperado, da perda importante da reserva ovariana ou de uma trajetória em que o projeto de maternidade aconteceu mais tarde.


Ela não apaga o caminho percorrido até ali. Para algumas mulheres, pode significar justamente a possibilidade de construir uma nova forma de chegar à maternidade.


Precisamos falar sobre fertilidade sem culpa e sem assustar as mulheres. Ninguém deve decidir ter um filho apenas porque o relógio biológico está passando. Mas toda mulher merece conhecer o impacto da idade sobre seus óvulos, entender quando a preservação da fertilidade pode ser considerada e ter informação para fazer suas próprias escolhas.


Quando os próprios óvulos deixam de representar um caminho possível, o desejo de ser mãe não necessariamente termina com eles.


A reprodução assistida pode oferecer outras possibilidades. E informação, acolhimento e avaliação individualizada são fundamentais para que cada mulher decida o que realmente faz sentido para a sua própria história. Agende sua consulta.


Com carinho,

Dra. Carla Iaconelli - Especialista em Reprodução Humana

 
 
 

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