Depois do câncer, ainda é possível ser mãe?
Atualizado: 28 de set.

Quando uma mulher recebe um diagnóstico de câncer, é natural que toda a atenção se volte para o tratamento. Surgem medo, dúvidas, exames, decisões importantes e uma mudança brusca na rotina. Mas, para quem ainda deseja ser mãe, existe uma pergunta que também precisa fazer parte desse momento: esse tratamento pode afetar a minha fertilidade? Eu conheço essa realidade não apenas como médica. No ano passado, eu também vivi a experiência de receber um diagnóstico de câncer.
Passei pelo impacto da notícia, pelas incertezas e por esse processo de reorganizar prioridades que tantas pacientes conhecem tão bem. Talvez por isso, hoje eu tenha um olhar ainda mais cuidadoso para a mulher que chega ao consultório vivendo esse momento.
Na reprodução humana, sabemos que alguns tratamentos oncológicos podem comprometer a função dos ovários, de maneira temporária ou permanente. Isso depende de vários fatores, como idade, tipo de câncer, medicamentos utilizados, doses e tratamento indicado. Por isso, quando uma mulher em idade reprodutiva recebe o diagnóstico e ainda deseja ter filhos, essa conversa precisa acontecer o quanto antes.
O diagnóstico chegou. E agora?
Antes do início do tratamento oncológico, sempre que houver tempo e segurança clínica, é possível avaliar estratégias de preservação da fertilidade. Uma das principais possibilidades é o congelamento de óvulos. Em alguns casos, também pode ser considerada a formação e o congelamento de embriões. Existem ainda situações específicas em que outras alternativas de preservação reprodutiva podem ser discutidas.
Mas existe algo fundamental: a reprodução humana nunca deve competir com o tratamento do câncer. O trabalho precisa ser conjunto. Oncologista e especialista em reprodução humana devem conversar para entender qual estratégia é possível, segura e adequada para aquela paciente, sem comprometer o início do tratamento oncológico. Não existe uma fórmula única. Cada mulher precisa ser avaliada individualmente.
E quem já terminou o tratamento?
Muitas mulheres chegam até mim depois de terem vencido essa etapa e perguntam: “Doutora, eu ainda posso engravidar?” E essa resposta depende da história de cada uma. Algumas mulheres mantêm a função ovariana e podem engravidar espontaneamente. Outras podem precisar da ajuda da reprodução assistida. Se houve congelamento de óvulos ou embriões antes do tratamento, esse material também poderá fazer parte do planejamento reprodutivo no futuro, sempre após avaliação e liberação da equipe médica.Quando não houve preservação da fertilidade e os ovários foram muito comprometidos pelo tratamento, ainda assim podem existir caminhos.
A ovodoação também é uma possibilidade
Uma dessas alternativas é a ovodoação, em que utilizamos óvulos de uma doadora para a formação do embrião. Para algumas mulheres que perderam a função ovariana após o tratamento, essa pode ser uma possibilidade de viver a experiência da gestação, desde que existam condições clínicas para isso. E esse é um ponto que considero muito importante: perder a função dos ovários não significa, necessariamente, perder todas as possibilidades de maternidade. A medicina reprodutiva hoje oferece diferentes caminhos, que precisam ser discutidos com clareza, responsabilidade e acolhimento. Também existem situações em que, pelo tipo de câncer ou pelas condições de saúde da paciente, uma gestação pode não ser indicada. Nesses casos, outras possibilidades reprodutivas podem ser avaliadas pela equipe médica.
Existe vida depois do diagnóstico
Depois da minha própria experiência, essa frase ganhou ainda mais significado para mim. Quando falamos em câncer, é claro que o primeiro objetivo é tratar a doença e preservar a vida. Mas aquela paciente continua sendo uma mulher com desejos, planos, relacionamentos e sonhos. E, para muitas delas, a maternidade faz parte desses sonhos. Hoje, quando uma paciente oncológica senta diante de mim e fala sobre o medo de não conseguir ser mãe, eu escuto essa mulher como médica, mas também com a sensibilidade de quem já esteve do outro lado de um diagnóstico. Isso mudou meu olhar. Não significa que eu tenha todas as respostas. Significa que compreendo ainda mais a importância de oferecer informação, possibilidades e, principalmente, tempo para essa mulher entender suas escolhas.
Meu recado neste Outubro Rosa é simples: se você recebeu um diagnóstico de câncer e ainda deseja ter filhos, fale sobre fertilidade. Pergunte ao seu oncologista se o tratamento pode afetar sua reserva ovariana. Procure um especialista em reprodução humana. Entenda se existe indicação para congelamento de óvulos, embriões ou outra estratégia. E, se você já passou pelo tratamento e agora deseja engravidar, também procure uma avaliação. Nem sempre o caminho será aquele que você imaginou inicialmente. Mas, muitas vezes, existem possibilidades que essa mulher ainda nem conhece.
Um diagnóstico de câncer pode mudar muitos planos. Mas ele não precisa, automaticamente, encerrar o sonho da maternidade. Agende sua consulta.
Com Carinho
Especialista em Reprodução Humana




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