Infertilidade masculina também existe e está na hora de falarmos sobre isso sem medo
Durante os anos em que venho acompanhando casais em busca da realização do sonho de ter filhos, percebo uma cena que ainda se repete com frequência: quando o positivo não chega, o foco da investigação recai quase sempre sobre a mulher.
Ela faz exames, muda hábitos, procura respostas, enquanto o parceiro, muitas vezes, fica à margem da conversa, acreditando que está tudo bem com ele, só porque tem vida sexual ativa. A verdade é que a fertilidade masculina também importa e precisa ser levada a sério.
O que pouca gente fala é que o fator masculino é responsável por cerca de 40% dos casos de infertilidade em casais que me procuram. E, mesmo assim, esse tema ainda é cercado de tabus, preconceitos e desinformação.

Infertilidade não é impotência
É comum ver homens confundindo infertilidade com impotência, e isso cria um medo paralisante de procurar ajuda. Mas quero deixar bem claro: um homem pode ter ereções normais, desejo sexual ativo e ainda assim apresentar alterações importantes na qualidade do sêmen. E isso não o torna menos homem, nem menos capaz de ser pai , especialmente com o apoio da medicina.
Simples de investigar, possível de tratar
O primeiro passo costuma ser um exame simples: o espermograma. Com ele, consigo avaliar quantidade, mobilidade e morfologia dos espermatozoides. A partir desse resultado, podemos entender se há necessidade de outros exames e qual caminho seguir.
Às vezes, o que está afetando a fertilidade são questões do estilo de vida, como tabagismo, álcool em excesso, estresse, má alimentação, sedentarismo ou o uso de anabolizantes. Em outras situações, encontramos causas clínicas, como varicocele, alterações hormonais ou infecções que podem (e devem) ser tratadas.
Mesmo em casos mais delicados, como a azoospermia (ausência de espermatozoides na ejaculação), a ciência tem avançado. Hoje conseguimos, muitas vezes, obter espermatozoides diretamente dos testículos, com técnicas minimamente invasivas. E isso pode permitir que o sonho da paternidade seja realizado por vias como a fertilização in vitro.
Cuidar da fertilidade é um ato de responsabilidade
Infertilidade masculina ainda é um tema evitado por muitos homens. Alguns sentem vergonha, outros não sabem por onde começar. Por isso, meu papel como médica é também acolher, escutar e oferecer caminhos reais para quem precisa de ajuda.
Fertilidade é um assunto de casal, mas também é uma responsabilidade individual. Se você deseja ter filhos, agora ou no futuro, cuidar da saúde reprodutiva é tão importante quanto cuidar do coração ou da alimentação.
A minha missão não é apenas ajudar casais a engravidar. É ajudar pessoas a se libertarem de culpas, tabus e medos, e reconhecerem que procurar ajuda é um sinal de maturidade, coragem e amor.
A infertilidade masculina existe. E quanto mais falarmos sobre ela, mais famílias poderão nascer com ciência, acolhimento e esperança.
Dra. Carla Iaconelli




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